A adolescente, que ainda passa por acompanhamento mÊdico, falou pela primeira vez sobre o assunto nesta quarta-feira (27), em entrevista ao G1. "Perdi a conta de quantas cicatrizes eu tenho no meu corpo. No começo eu contava, mas parei porque são mais de 30, mais de 50. Ele falava que gostava de arma branca porque matava aos poucos. Eu pedia para Deus tirar a minha vida, mas não ia adiantar", afirma.
As imagens são fortes para quem entra pela primeira em uma pequena casa na cidade de Votorantim. A calça comprida e o gorro na cabeça tentam esconder as cicatrizes que carrega no corpo e na alma.
Dores sentidas atÊ hoje, principalmente em um dos braços, recentemente engessado. A jovem movimenta as mãos durante a conversa, mas não consegue mexer todos os dedos. Por conta das agressþes, dois deles estão quebrados e outros trincados.
O relato da adolescente sobre o drama vivido ao lado do primeiro namorado segue, entretanto, sem engasgos ou uma gota de lĂĄgrima sequer. Reflexo de quem aprendeu com o sofrimento a nĂŁo expressar o que sente. "Eu comecei a aguentar a dor para ninguĂŠm perceber, ele notou e fazia eu mesma fechar os machucados. Com o tempo, nĂŁo tinha mais sensibilidade em vĂĄrias partes do corpo", conta.
Namoro
O casal, que morava em Votorantim, se conheceu em um baile funk, quando a jovem acabara de fazer 15 anos. Conforme eles foram se conhecendo, passaram a morar juntos. A primeira agressão veio um mês após o começo do namoro.
Segundo a jovem, eles estavam voltando da igreja quando ele a trancou dentro de um quarto e começou a agredi-la com tapas, socos e um cabo de vassoura. “Ele falou que eu estava olhando para outras pessoas e começou a me bater. Eu fiquei assustada e tentei fugir, mas ele falava que iria me matar e quem entrasse na frente tambĂŠm. Eu nĂŁo sabia que ele era violento desse jeito.”
Com medo de denunciar para a famĂlia as agressĂľes que sofria, seguiu com o namoro quieta. Ela conta que os parentes atĂŠ chegaram a desconfiar dos maus-tratos, mas foi obrigada a falar que estava "tudo bem". "Eu nĂŁo podia mexer na boca que ele falava que eu estava com 'sem vergonhice' para cima dos outros. Ele nĂŁo desgrudava de mim, entĂŁo nĂŁo tinha como falar [para os meus pais]".
A garota lembra que sete meses depois do inĂcio do namoro o rapaz a obrigou a se mudar para outro estado, na cidade de Santa Helena de GĂłias (GO).
"Para a minha famĂlia ele inventava que era para arrumar serviço, que tinha parentes lĂĄ, mas nunca cheguei a conhecer. Foi como uma obrigação, talvez por medo de alguĂŠm descobrir o que ele fazia", diz. Segundo a jovem, o rapaz tambĂŠm teria sofrido ameaças por conta de desavenças com outras pessoas em Votorantim.
AgressĂľes e medo
A jovem relata que nos primeiros meses em GoiĂĄs chegou atĂŠ a dormir na rua. Eles moraram em uma pensĂŁo e depois em uma casa alugada em uma chĂĄcara. Viviam da venda de CDs piratas em uma banca, de coisas encontradas na rua e de balas em semafĂłros. O casal chegou atĂŠ a pedir dinheiro e comida na rua.
A adolescente conta que, apĂłs a mudança, as agressĂľes ficaram piores e mais constantes, quase que diĂĄrias. "Era uma tortura, e ele gostava. Batia em mim por qualquer motivo e dava risada", diz, ao afirmar que o homem nĂŁo usava drogas. “Ele falava para eu fazer comida em um minuto. Como o arroz e feijĂŁo demora, ele vinha e jĂĄ me batia com qualquer coisa que estivesse perto. FacĂŁo, faca de cozinha, pedaço de caibro, ferro, chinelo, tudo o que estivesse na frente. Ele tambĂŠm me mordia. Eu queria chorar, mas nĂŁo podia."
Em uma das agressþes, a mais violenta, a garota ficou com uma eterna cicatriz no rosto, próxima aos olhos. "Ele bateu com uma garrafa PET cheia de ågua. Subiu em cima de mim na cama, prendeu meus braços e 'tacou' na minha cara. Eu virei para não bater no meio do rosto, foi quando fez um buraco. Não sei como não fiquei cega, porque passei um mês sem enxergar."
A jovem relata que vårias vezes foi atingida com golpes de facão na cabeça, tanto com o cabo quanto pela lâmina. "[Ele] Jogava o facão na minha cabeça e foi abrindo mais. Eu só via pedaço de couro cabeludo saindo com fios de cabelo. Fui perdendo a sensibilidade e não sentia mais nada. Ele quebrou o meu dedo com o facão. Conforme eu ia me defendendo, ele me atingia."
PrisĂŁo
Todos os ferimentos eram estancados por ela mesma e em casa, sem a ajuda de profissionais. "MoĂa flor e passava pasta de dente para tampar o ferimento. JĂĄ tampei com terra tambĂŠm. O que achava na frente eu colocava para tampar os buracos, porque nĂŁo tinha remĂŠdio."
O contato com a famĂlia em SĂŁo Paulo sĂł era permitido via telefone, sempre com a "supervisĂŁo" do namorado.Segundo a jovem, ela era obrigada a falar para a mĂŁe que levava uma boa vida em GoiĂĄs, com casa, moto e dinheiro. "Ele ficava com um facĂŁo do meu lado me ameaçando, mandando eu falar que estava tudo bem. Uma vez eu quase chorei porque tinha acabado de apanhar, mas ele desligou o telefone, me bateu de novo e quebrou o chip do celular."
A adolescente tambĂŠm diz que atĂŠ tentou escapar, mas nĂŁo conseguia pedir socorro. "Eu nĂŁo conhecia ninguĂŠm lĂĄ [em GoiĂĄs]. Quando ele nĂŁo estava perto, eu sĂł saĂa com conhecidos que me vigiavam e com o corpo inteiro coberto para esconder as marcas. Um dia tentei fugir, mas acabei pegando uma rua errada. Ele me achou na metade do caminho e voltou me batendo. Fiquei com medo de escapar. Era que nem uma prisĂŁo. Eu tinha que suportar porque se eu chorasse ele batia mais. Aprendi a segurar a minha dor. Tinha que apanhar quieta", lembra.
Acidente de moto
As agressĂľes sĂł foram descobertas apĂłs um acidente de trânsito em GoiĂĄs, no Ăşltimo dia 12 de julho, quando o casal sofreu ferimentos leves. Durante atendimento da ocorrĂŞncia, o Corpo de Bombeiros notou machucados antigos e infeccionados na cabeça da vĂtima e a levaram para o Hospital de UrgĂŞncias de Santa Helena de GoiĂĄs (Hurso). "Minha cabeça estava aberta e com bichos. Todo mundo olhou porque sabia que nĂŁo era daquele acidente", lembra.
A famĂlia da jovem foi atĂŠ a cidade apĂłs ser contatada pelo Conselho Tutelar de Santa Helena de GoiĂĄs. A PolĂcia Civil prendeu o jovem no dia 18, quando ele foi levado para o Centro de Inserção Social (CIS) de Santa Helena de GoiĂĄs.
“O autor tinha uma banquinha de CDs piratas e, para que ele fosse detido o quanto antes, foi autuado em flagrante por violação de direitos autorais. Depois a prisĂŁo dele foi convertida em preventiva. Ele foi indiciado por tortura e subtração de incapaz, que ĂŠ quando tira um menor de casa sem a autorização dos pais. Ele tambĂŠm vai responder por desacato, porque ameaçou conselheiras tutelares enquanto a menor estava internada”, relatou o delegado responsĂĄvel pelo caso, Thiago Latorre, ao G1 em GoiĂĄs.
AlĂvio
De volta a Votorantim, a jovem respira aliviada e em segurança. “Agora, em casa, eu me sinto melhor. Eu queria morrer e quase me matei. Se nĂŁo fosse o acidente eu acho que estaria morta", fala. Hoje, ao lado da famĂlia, ela se diz sem medos e feliz por estar viva. “Eu tenho raiva e nojo dele [o ex-namorado]. Ele estava me matando aos poucos. NĂŁo sei como nĂŁo morri com os golpes de facĂŁo na cabeça. Eu quero que ele pague por isso, por cada cicatriz que eu tenho no meu corpo.”
A garota tambÊm jå faz planos para o futuro, quando quer escrever uma nova história. "Foi uma lição, para eu aprender. Agora vou tomar mais cuidado. Eu vou voltar a estudar de novo e fazer as coisas direito. Fazer algum curso, tirar a minha carta [de habilitação]. Seguir em frente", finaliza.
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