
Um paciente do Hospital Geral do Estado (HGE) acusa funcionários da unidade médica de cometer transfobia por não usarem o seu nome social e o tratarem no feminino. Roberto Inácio sofre de anemia falciforme e está internado desde o dia 2 de março. Em entrevista ao Bahia Notícias, ele relata que o tratamento de enfermeiros causou constrangimentos desde o momento da triagem. “Meu cartão do SUS tem o meu nome social. Eu pedi para a moça que faz o registro olhar meu nome social, pois é um direito meu porque eles dão uma pulseira com seu nome. Aí, ela ignorou. Como ela ignorou, foi tudo feito no feminino. Isso gerou, já na triagem, um constrangimento. Eu não quis discutir com ela, pois estava com muita dor, quis receber logo atendimento. Meu nome de registro foi colocado na maca bem grande. Todo mundo que vinha falar comigo eu tinha que explicar”, explica. Uma portaria do Ministério da Saúde, de número 1820, de 13 agosto de 2009, estabelece que os pacientes podem ser atendidos na rede de saúde pública com seus nomes sociais, que devem constar também no Cartão do Sistema Único de Saúde (SUS) do usuário. Inicialmente, Roberto foi internado na ala feminina da unidade de saúde, e conseguiu ser transferido para a ala masculina apenas depois de insistir com enfermeiros. Mesmo assim, o paciente alega que funcionários continuavam se referindo a ele no feminino, alegando que seu nome de registro não é Roberto e só iriam chamá-lo conforme o que consta no RG. “Hoje mesmo, umas 6h da manhã, eu já acordei com uma enfermeira dizendo: 'Ah, você é uma mulher muito bonita, traços muito femininos'. Primeiro, ela começou misturando gênero e sexualidade, dizendo: 'Ah, porque você não aceita que é uma mulher que gosta de mulher?'", lembra. Roberto prestou queixa sobre o caso na ouvidoria do HGE na última quarta-feira (8) pedindo que seu nome social seja colocado nos registros de informação da unidade médica. Apesar da reclamação, a qual a reportagem teve acesso, o paciente sustenta que o problema não foi resolvido e enfermeiros continuam o tratando no feminino. "Eles [da Ouvidoria] disseram que não tinham mais nada pra fazer, que já fizeram a parte deles, que é passar a demanda pra equipe", disse ao Bahia Notícias. Além das dores provocadas pela doença – Roberto afirma que precisa tomar morfina de quatro em quatro horas – o paciente precisa lidar também com a violência psicológica de ser tratado de uma forma diferente da qual se identifica. “Para mim, é comparado com a dor física [a dor de ser tratado no feminino]. Por mais que não seja a dor da anemia falciforme, dói muito. É uma coisa que eu luto todos os dias pra esquecer. Eu tenho que brigar pra ser o Roberto”, lamentou. Internado há 11 dias, o paciente também denuncia não ter recebido o tratamento médico adequado nos primeiros dias no hospital. De acordo com ele, a queixa também foi passada para a ouvidoria, mas, no documento, só consta apenas a reclamação por transfobia. “Eu tenho crises em que agonizo de dor. Tomo morfina de quatro em quatro horas. No início, eu agonizava de dor e eles se recusavam a dar a medicação. As coisas só melhoraram quando um médico do Trans Saúde falou com uma doutora que estava no plantão e eles me ouviram. Eles estavam me medicando com um intervalo muito longo. Pra eu não ficar gritando de dor, eu preciso ser medicado de quatro em quatro horas. Eles estavam me medicando de seis em seis, de oito em oito”, revelou.
(BN)
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